Por experiência, reconheço que quanto mais tempo se fica com a falta de algo, mais loucamente se reage face à utilização dessa coisa uma vez encontrada. A indústria cinematográfica, particularmente, tem explorado bastante esta ideia, na qual pessoas se matam por comida, medicamentos, pessoas.
Onde quero chegar é que a falta, tem um efeito interessantíssimo, especialmente no ser humano. Mas atenção, a falta de algo que já se teve.
Ainda se pode observar, que esta ânsia por satisfazer a falta, não dura muito tempo, porque acaba com a morte do desejo. A pessoa faminta acaba por morrer, o vingador acaba por desistir, o amante acaba por desanimar, o detective pára de procurar.
Em resumo, a procura morre com o desejo.
Se saciarmos a sede, ela desaparece por um pouco, mas volta. Muitas vezes combater a falta é ficar escravizado por ela. Existem muitas coisas que devemos deixar de alimentar e de procurar, na verdade vamos passar fome delas, mas ficaremos libertos delas também.
A interpretação fica com o leitor, mas permita-me abordar um outro ponto. Para um viciado em droga, ficar livre, ele não precisa de suplementos para enganar o desejo, isso acaba por ser alimentar o desejo, assim o vício nunca desaparecerá, a resistência até à "morte" é a única maneira de vencer.
Por último deixe-me esclarecer a dependência lícita e a ilícita, porque existe o desejo lícito e o desejo ilícito. Uma vez disse a certa pessoa para ela largar o vício do tabaco, essa pessoa disse que eu era viciado em comida. Ora desejar comida em medida e comer regularmente, não é nem um desejo ilícito (porque faz bem à saúde), nem um vício (porque sem ela não posso viver). Uma dependência envolve um aprisionamento a uma coisa da qual não depende a minha vida.
