terça-feira, maio 06, 2008

A liberdade

A: Se Deus existe como é que tantas crianças inocentes podem morrer à fome?
B: Eu perguntaria assim: Se a comida existe porque é que crianças inocentes morrem à fome?
A: Ora, porque a comida não é distribuída devidamente.
B: E é Deus o responsável pela partilha da comida?
A: Não, mas a bem pensar existem sítios mais propícios à existência de alimento que outros...
B: Na verdade o clima já foi bem diferente em toda terra. É exactamente por causa da mesma pessoa que não distribui os alimentos que isto ficou assim, já sabes que estou a falar de nós humanos.
A: Mas então e as mortes de pessoas inocentes?
B: Insisto: Quem é que mata?
A: Já sei os Homens, mas Deus permite.
B: Sim, a única coisa que te podes queixar é que Deus deu liberdade ao Homem, no entanto para te queixares da liberdade, precisas de liberdade! Estás a serrar o ramo onde estás assentado.
A: Isso não deve ser bem assim. Deus poderia condicionar a liberdade!
B: Liberdade condicionada...ehheh. Gosto desse termo, só não percebo o que é que isso tem de liberdade, se há coisas que não posso fazer, já não sou livre.
A: Mas ouve lá, nós temos liberdade condicionada a respeito das funcionalidades do nosso corpo.
B: Sim, de facto Deus permite-te fazer tudo mas não de todas as maneiras.
A: Explica-me isso...
B: tens liberdade para chegar a todas as sensações, todos os sentimentos, fazer tudo o que pensares, porém não da forma que queres. Pudemos chegar à Lua, mas não via teletransporte.
A: Mas Porquê?
B: Bem, liberdade não é poder fazer tudo! Poder fazer tudo é Omnipotência! Liberdade é poderes fazer tudo com as capacidade que tens à tua disposição, usando-as em toda a sua extensão.
A: Desisto, mas não desarmo.
B: Enfim, liberdade.

14 comentários:

rafa disse...

se eles ao menos desistissem sensatamente mas isso raramente acontece :P

Marcos Sabino disse...

bom texto. vou colocar no meu blogue domingo :)

Penedo disse...

N9,
Excelente. Obrigado pelo texto e pela mensagem que ele encerra.
Um abraço.

Dário Cardina Codinha disse...

Posso fazer um texto desses com os argumentos ao contrário? nah... prefiro textos realistas


fica bem

natenine disse...

Dário, faz o que quiseres estou a abordar uma temática, não pode haver duas verdades a respeito do mesmo tema, este é um texto realista.

Dário Cardina Codinha disse...

Quem são os autores dos diálogos? Tu, logo puxas para onde queres. Outra coisa é a falta de argumentos sustentados e inteligentes por parte do B.

Os problemas da falta de alimentos são vários:

1- Falta de campo fértil em algumas zonas

2- Política agrícolas

3- Especulação económica

4- Proibição de OGMs

natenine disse...

Eu puxo pela verdade. O que eu quero é transmitir uma mensagem, tens de ler nas entrelinhas, se tens alguma opinião contra essa mensagem manifesta. Depois só em dás razão, a não ser no campo fértil, mas de facto deveria-se fazer transitar o alimento.

Dário Cardina Codinha disse...

Duvido muito que algum diálogo vá por esse caminho.

Posso inventar centenas de pseudo-diálogos que terminem como eu quero, basta um dos elementos não ter capacidade de argumentar, e... violá!

natenine disse...

Repara eu não fiz um diálogo só para mostrar um triunfo da minha ideia, eu fiz um diálogo porque este tipo de diálogo é comum, o poder de argumentação do opositor à minha ideia só teve de ser o necessário para eu transmitir uma ideia, e aliás deixa-me dizer que penso que a personagem que "desenhei" teve argumentos espontâneos mas sólidos e foi sincero.
Eu quis transmitir uma ideia não mostrar um triunfo dessa ideia.

Philosophia, Religio, et Caritas disse...

Não se sabe ao certo se pode haver uma decisão que é simultaneamente livre e racional. Mas parece consensual que só um agente informado, racional e consciente das consequências pode ter livre arbítrio. Um bebé, um ignorante ou um epiléptico não exercem um arbítrio livre. É bom senso impedir a criança de enfiar os dedos na tomada, mas na defesa da fé o bom senso é dispensável.

A criança pisa a mina porque não sabe que a mina está lá. É um erro, como meter os dedos na tomada. Não é um exercício livre de vontade. E evitar o mal é uma coisa boa. Estou certo que alguma entidade boa avisava a criança se soubesse que ela ia pisar uma mina. Esse estranho respeito pelo livre arbítrio de quem fez a mina não justifica rebentar as pernas ao miúdo. E o mesmo Deus que deixa a criança ficar sem pernas desviou a bala que ia matar o Papa.

Conseguimos identificar substâncias nocivas pelo cheiro e sabor mas só notamos o cancro ou a radiação quando é tarde demais. Instintos fazem-nos evitar insectos que possam ser perigosos mas não sentimos o perigo da electricidade ou do amianto. Se torcemos um pé a dor impede-nos de fazer força até recuperar, mas quando sentimos o terremoto já está tudo a cair-nos em cima. E só recentemente descobrimos a importância de lavar as mãos. «Lavem as mãos» tinha sido um mandamento muito mais útil que todos os outros, que só servem o proselitismo ou para afirmar o óbvio.

A maldade deliberada e consciente pode vir do livre arbítrio mas quase todo o mal se deve à ignorância, à estupidez e ao azar. A escolha livre é rara. A informação é incompleta e qualquer acto tem consequências imprevisíveis. Não escolhemos o que somos, como somos nem onde nascemos. Vivemos limitados pela nossa natureza e sujeitos aos erros dos outros. E muito do que acontece não podemos mudar. A realidade está longe desta crença…

«E para os injustiçados aqui na terra, [Deus] relembra que não é aqui que a justiça definitiva é feita. Que fomos feitos para viver por amor, e quando morrermos, continuaremos a viver no verdadeiro Amor, se assim escolhermos.»

Este universo é tão diferente do que a crença exige que o crente tem que inventar um universo mais de feição. E é esse que conta. Este Deus dá a todos o livre arbítrio. Dá a uns a liberdade de morrer à fome e a outros a de nadar em riquezas. Mas depois castiga ou recompensa cada um pelas escolhas desta vida que não passa de uma partida de mau gosto.

É treta. Não vivemos num universo justo que respeita o nosso livre arbítrio e que compensa numa outra vida as injustiças desta. Se queremos justiça temos que a criar. Se queremos escolhas temos que compreender como as coisas funcionam e lidar com a realidade como ela é. Os que têm fome e sede de justiça não são bem-aventurados; estão é a ser enganados se acreditam no reembolso póstumo. E quem ama o outro avisa-o que vai pisar uma mina.

natenine disse...

Philosophia... é óbvio que não vou publicar o teu comentário acerca do mal, e deixa-me dizer-te que és mal educado, porque ja te respondi dando um link deste blog para veres e de certo não o fizeste. Se tivesses dúvidas o comentário era lá que deveria ser posto.

Philosophia, Religio, et Caritas disse...

boa! na ausencia de argumentos não se responde... nao é???

natenine disse...

Já te dei um link acerca dessa questão. Mas vou voltar a responder.

Deus é perfeitamente Bom, tudo o que criou é bom.
Deus ao Homem livre arbítrio e isto é bom, capacidade de poder amar ou odiar Deus, de obedecer ou desobedecer, quando decide desobedecer aí aparece o mal. O mal é um estado de uma coisa boa. As trevas são ausência de luz, o frio é ausência de calor, o mal é ausência de bem.
O perfeito amor é aquele que se pode decidir, não aquele que somos obrigados aceitar.
Um indivíduo mau nessecita de coisas boas, por exemplo um violador, tem o desejo sexual, que é uma coisa boa, tem vontade, que também é bom, tem livre-arbítrio, porém decide usar mal o seu bem, isto é, em abuso ou na altura errada ou da maneira errada.

rafa disse...

"todos os outros, que só servem o proselitismo ou para afirmar o óbvio."
Até esta frase é reveladora da natureza de Deus e da sua existência. por que razão um ser irracional que evoluiu até à racionalidade iria ter como óbvio valores justos como os dos mandamentos? justiça bem e mal não fazem parte da nossa anatomia nem do nosso DNA então porquê afirma-los como óbvios se Deus não os incutiu na nossa consciência? ah por acaso consciência é outro exemplo de algo não natural. E em relação ao que disseste da criança. O que te falta entender é que o livre-arbitrio que Deus nos deu não é acerca do desfecho das nossas acções, isto é, quando pisas a mina ela explode, provavelmente não o irias fazer se soubesses que ela la está no entanto o livre arbitrio de Deus deixa-te dar o passo até porque se não o fizesse o objectivo que há para o livre-arbitrio de Deus perdia-se, este óbjectivo é que qualquer pessoa no mundo o possa aceitar o preferir não aceitar, se a criança fosse avizada por Deus de todas as vezes que se puzesse em perigo durante a sua infância qual seria a ipotse de ela dizer que Deus não existe quando for adulta?